Então o homem voltou a sentir frio. É engraçado, pensa, o fato de poder ver o sol raiando e, mesmo assim, sentir frio. É como se o sol estivesse preso dentro de uma televisão: nós conseguimos visualizar a sua beleza clareadora, mas não podemos senti-la. Culpando-se por ter duvidado da capacidade daquelas temperaturas e dispensando o par de luvas, o homem segue o seu caminho, sentindo muito frio e ressentimento. O sol da manhã iluminou um trecho pequeno no chão. Ele fica naquele quadrado amarelado pelo sol. Mas não tem jeito. O frio venceu em uma daquelas primeiras manhãs do mês de maio.
Um homem, quando está com frio, sente o corpo reagindo às baixas temperaturas e, por isso mesmo, recorda-se de que está vivo. Acostumado às mangas curtas, aquele vento que parece lhe atravessar a alma o obriga a vestir blusas acolhedoras. Neste frio, pessoas cheiram à naftalina misturada com perfumes. É uma evidência de que quase todos resgataram blusas de outros invernos, até então enterradas em um guarda-roupa qualquer. Quando sentindo frio, um homem parece ficar diminuído, contraído, com expressões estáticas que demonstram inquietação perante aquela temperatura.
Mesmo com tanto incômodo causado pelo frio, uma reflexão invade o pensamento daquele homem. Se frio é psicológico ele não sabe, mas, por causa daquele intrínseco pensamento que tinha se afundado, aqueles pouco mais de três minutos de dialética interna não foram interrompidos por queixas relacionadas à temperatura, ao clima que resseca a pele pálida e frágil dele. O homem reflete sobre as diferenças de alguém que sente frio com alguém frio. Um homem que sente frio é mais frágil e defensivo do que o homem frio, que parece se aquecer com a sua capacidade de se abster de toda e qualquer situação envolvendo as coisas do coração.
Um homem frio não quer nem mesmo demonstrar que, mesmo com aquelas baixas temperaturas, teria sido mais reconfortante estar usando um par de luvas que agora repousa na gaveta. Um homem frio perdeu seu pai há exatamente quatro anos. Um homem morto deve não sentir frio. Um homem vivo sente frio nas mãos e se entrega às lembranças de uma infância ao lado de um pai que sempre demonstrou sentir pouco frio. O homem queria ser mais frio e não um homem que sente frio. Uma frase do tempo de criança o faz chorar: “põe a blusa, Juninho”. Algumas lágrimas aquecem seu rosto castigado pelo vento frio. Mas homem não chora nem por dor e nem por amor. Chora sim pela morte do pai. “Por que me abandonaste, ó pai?”, recorda-se de outra frase.
O pai dele morreu no dia do trabalho. O pai dele morreu no mesmo dia da morte de Ayrton Senna. O piloto ganhou documentário que foi para as telas do cinema. Dizem que todo mundo chora ao assistir ao filme. Até mesmo os homens frios, que costumam adorar Fórmula 1. Homem nenhum fez documentário sobre a vida do seu pai. Aliás, homem e nem ninguém foi ao cemitério visitar seu pai, que descansa ao lado do seu avô. Fez frio naquela manhã de domingo. Seu pai não gostava muito de cinema, mas gostava de Fórmula 1. Se vivo estivesse, seria um homem frio a mais tentando esconder as lágrimas após assistir ao documentário do Senna.
Crônica publicada dia 3 de maio de 2011 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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