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janeiro 06, 2011

Um guaraná

Nariz afinado, olhos pequenos e profundos, que sorriam muito mais do que a boca. Cabelo pretinho, bem menininho, agarrado a mão do pai todos os sábados pela manhã eles iam até o bar do Paulo.
Ele se sentava numa mesinha, o pai ia até o balcão. Uma cerveja. “Quer alguma coisa?” e o menino da cadeira no meio do bar, os pezinhos balançando no ar, respondia timidamente “um guaraná”. Mas era sempre a mesma coisa. Era só o ‘seu’ Paulo vir lá do freezer com a garrafinha verde na mão e o menino murchava todo, desanimava, perdia o gosto pelo refrigerante. Ações imperceptíveis pro pai. Difícil era ele entender porque nunca conseguia o refrigerante que queria. Canudos coloridos escolhidos a dedo tomava o guaraná, olhava os rapazes nas mesas ao lado e esperava o pai pra ir pra casa.
Escola, bola na rua, amigos e mais uma semana passava, mais um sábado chegava e lá ia ele novamente com o pai até o bar do Paulo. Um grupo de amigos tomava refrigerante e era o refrigerante dele. Hoje era o dia. O pai no balcão, ele em pé do lado. “uma cerveja, e pra você?”, “Eu quero um guaraná”, ‘seu’ Paulo se afasta e quando volta traz a garrafa verdinha, maldita garrafa verdinha, mordeu o lábio, se avermelhou todo, pegou fôlego e a voz miudinha saiu sem que ele se desse conta: “mas eu não quero essa, eu quero o guaraná pretinho”, silêncio. ‘Seu’ Paulo e o pai do menino se olham, o pai se abaixa e tenta entender: “Guaraná pretinho?”, “é pai, igual o dos meninos ali”, “ah, você quer uma Pepsi?”.. “ééééé”..
“Pepsi, então é esse o nome? Pepsi..” e repetiu algumas vezes pra memorizar.
Recebeu nas mãos ao sua primeira garrafinha de Pepsi e com os dentes branquinhos todos a mostra bebeu feliz, não apenas por ter conseguido o que queria, mas porque dali pra frente seria esperto o bastante pra não ter que beber mais do guaraná verdinho.

(Lari Dardengo -literaturapessoal.wordpress.com)

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