Um frei brasileiro que vive há 40 anos em Jerusalém tem a
responsabilidade de preparar o Horto das Oliveiras para receber o Papa
Francisco na próxima segunda-feira (26/05), durante a primeira visita
oficial do pontífice à Terra Santa. Francisco começa a viagem no sábado
(24/05) pela Jordânia, e passa pelos Territórios Palestinos até chegar a Israel.
Darcísio Hobaert, religioso católico, mais conhecido como Frei Plácido,
é responsável pelas chaves do Getsêmani, onde, segundo a Bíblia, Jesus
suou sangue ao rezar e recebeu o beijo de Judas antes de ser capturado
por guardas. Além de oliveiras milenares, que já foram analisadas por
cientistas, o jardim abriga também a Igreja da Agonia.
O local, já visitado pelos pontífices Paulo VI, João Paulo II e Bento
XVI, vai receber Francisco e mais 700 pessoas por cerca de uma hora.
Para que isso aconteça em segurança, uma movimentação pesada de
militares do governo de Israel ocorre há semanas – o horto fica na
Jerusalém Oriental, território que é reivindicado pela Autoridade
Palestina, e recebe a visita de turistas de diferentes partes do mundo
todos os dias.
“O serviço de inteligência preparou o lugar com equipamentos antibomba e
de alta tecnologia, além de realizar uma varredura diária. A equipe de
segurança tem vindo com frequência observar todo o caminho que o Papa
vai fazer”, explica o frei.
O motivo de tanta preocupação é que o líder dos católicos estará em uma
área de conflito. Israel e Palestina brigam por territórios desde a
década de 1950, uma disputa com conflitos armados, atentados e baixas
para ambos os lados. Apesar da existência de tratados de paz, ainda não
há delineado um entendimento entre seus líderes.
Apesar de a visita papal ser apostólica, e não política, Frei Plácido
diz que Francisco já sinalizou que deseja transmitir uma mensagem à
região ao escolher começar a viagem pela Palestina. “É algo praticamente
impossível, com as barreiras entre os territórios de Israel e
Cisjordânia. Acho que ele vai falar sobre o mistério da Igreja para dar
sua vida em favor dos outros [e dizer] não à autoridade e à opressão”,
explica o religioso.
Bastidores do Getsêmani
Usando o hábito, um tipo de veste religiosa, o gaúcho de 75 anos, nascido em Crissiumal (a 400 km de Porto Alegre), atendeu ao G1
e explicou que já participou da visita de outros papas ao local. Ele
conta que foi diretor da biblioteca da Terra Santa entre 1993 e 1999,
ano em que voltou ao Brasil, onde ficou até 2012, quando retornou a
Jerusalém.
Com propriedade, faz relatos sobre as antigas oliveiras, que teriam
mais de 2 mil anos, além de reflexões sobre como é fazer parte de uma
minoria cristã-católica em uma região de conflitos religiosos e
políticos. “Somos minorisa absolutas. Seja a situação do católico ou do
cristianismo em geral, com as ramificações. Temos a proteção do Estado,
mas há registro de perseguição”.
Frei Plácido diz que a perseguição obriga alguns cristãos a rezar
escondido, até mesmo de suas famílias, ou ainda, força a emigração para
outros países.
“Eu sempre ia no Natal até Belém (na igreja da Natividade, cravada na
Palestina). Estava sozinho quando veio uma russa, que me contou, em
inglês, que tinha ido rezar à noite, mas disse à família que ia dar um
passeio. São muitas as famílias de nomes árabes cristãos que já partiram
para a América Latina. É preciso manter católicos [no Oriente Médio],
senão teremos igreja de pedra, não de gente viva”, conta o religioso.Mudanças na Igreja
Sobre a visita de Francisco, Frei Plácido diz que no dia da passagem
dele pelo Getsêmani, o religioso e seu grupo ficarão “prisioneiros da
segurança" desde 5 da manhã até a hora que o Papa for embora. “É um
pouco chato e difícil”, explica. Apesar das restrições, o brasileiro
deve se encontrar com o Papa.
O religioso faz críticas à montagem da infraestrutura para a visita,
alegando que há desperdício. “Procuro não me meter em assuntos em que
não devo palpitar, mas tem hora que ‘esquenta o sangue’”, disse. “Fico
entristecido e lembro que a Igreja somos nós”, disse, ao citar que não
há, em sua opinião, a necessidade de se colocar refletores dentro de uma
igreja, uma das providências tomadas pelo governo de Israel.
Sobre as mudanças propostas pelo Papa para a Igreja Católica, de que é
necessário “sentir o cheiro das ovelhas e não ficar na burocracia, mas
como uma igreja serva e pobre”, Plácido diz apoiar a reforma, mas nega a
necessidade de uma revolução, ou ainda, que Cristo tenha sido um
revolucionário, como alguns escritores têm proposto (um deles é Reza
Aslan, no livro “Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré).
Questionado se o Papa Francisco
teria motivos para “suar sangue” durante sua reflexão no Horto das
Oliveiras – assim como fez Jesus, antes de ser crucificado –, o
brasileiro afirma que os escândalos registrados dentro da Igreja
Católica, como os casos de pedofilia e disputas internas no Vaticano,
“são de suar sangue”.
“É uma dor enorme da Igreja os diferentes erros de sacerdotes que vemos
nos noticiários. Que coisa terrível! (...) Um padre estraga o trabalho
de dezenas de sacerdotes, porque ele tem ainda muita autoridade e
visibilidade”, afirma.
Apesar de todos os problemas que o cercam, Frei Plácido se mantém firme
em sua função no Getsêmani e não esquece sua grande paixão: o futebol.
Torcedor do Internacional, ele relembra com saudades o time brasileiro e
mostra, com orgulho, por baixo do hábito, uma camisa da equipe. É uma
forma de sentir o sangue brasileiro frente às diferentes raças e credos
que encontra todos os dias.

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