Selecionado para representar população indígena na cerimônia de
abertura da Copa do Mundo, em São Paulo, o menino Werá Jeguaka Mirim, da
aldeia Krukutu, na região de Parelheiros, no extremo sul da cidade,
caminhou sobre o gramado da Arena Corinthians para soltar uma das três
pombas da paz antes do início da partida.
Na saída do campo, porém, ele quebrou o protocolo e abriu uma faixa vermelha pedindo a demarcação das terras indígenas.
O protesto individual foi uma aposta da Comissão Guarani Yvyrupa. A
comunidade onde vive o garoto de 13 anos estava reunida no centro
cultural da aldeia, na tarde desta quinta-feira (12/06), torcendo por uma
vitória do Brasil na abertura do mundial, e ansiosa para ver o ato
simbólico ser transmitido internacionalmente.
“Estávamos reunidos com as demais lideranças para ver o jogo, mas
focados nisso, esperando ele mostrar a faixa. Nossa esperança foi no
menino, e ele conseguiu fazer o que esperávamos, só que não apareceu
para o mundo nem para o Brasil, nada. Ficamos frustrados”, disse Marcos
Tupã, coordenador da comissão.
O pedido
A cidade de São Paulo ainda abriga mais duas comunidades indígenas. A
cobrança pela demarcação é uma campanha nacional e antiga, mas tinha um
sobrepeso atual: a aldeia do Jaraguá, situada entre as zonas Norte e
Oeste, sofre ameaça de reintegração de posse marcada para o final do
mês.
Werá escondeu a faixa dentro do bolso do uniforme branco que vestia, e
ficou com ela esticada até pisar fora do gramado. O gesto, que durou
pouquíssimos minutos, surpreendeu até o pai, o escritor indígena Olívio
Jekupe. “Eu mesmo não sabia que ele ia fazer isso. Ele é calmo,
tranquilo, não tem vergonha.”
Olívio conta que foi hostilizado quando divulgou em seu perfil no
Facebook que o filho participaria da cerimônia de abertura do evento.
“Fiquei contente porque a gente sabe que o povo ia meter o pau na gente.
Quando avisei nas redes sociais que ele ia fazer parte da Copa, muitos
criticaram”, recorda.
Hoje, entretanto, recebeu mais de 50 pedidos de amizade na mesma rede
social. A multiplicação de amigos virtuais foi ainda maior na página do
garoto que protagonizou a cobrança pela causa. "Mostrou para o mundo que
nós não estamos parados", comemora.
Ele ainda explica que a comunidade não se opõe ao mundial. “Nós não
somos contra a Copa, somos contra as injustiças que fazem com as
demarcações que é a principal causa que estamos em luta há anos.”
Camisa 10
Um amigo de Olívio registrou o momento em que o menino deixa o gramado
com a faixa aberta, e cedeu a divulgação da imagem. O escritor comenta
que a repercussão local transformou seu filho em “celebridade” na
aldeia. “Ele voltou feliz, está andando na aldeia como famoso, todo
mundo quer tirar foto com ele”.
Ao pai, Wará disse que ficou satisfeito por ter conseguido defender as
causas indígenas, apesar da quase inexistente repercussão durante o ato.
E não escondeu a alegria de ter visto um ídolo a poucos metros de
distância. “Ele disse que ficou contente porque viu o Neymar de perto.”Corintiano, o menino também realizou o desejo de assistir a uma partida de futebol longe da televisão. Olívio, que é Palmeirense, diz que nunca levou os filhos ao estádio por temer a violência. “Aqui em São Paulo nunca fui a estádio porque tenho medo da violência. Prefiro assistir em casa, pelo menos a gente vê mais tranquilo. Na aldeia o povo joga bola no maior sossego, então a gente tem medo de ir na cidade assistir.”

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